os dedos sussurraram rangidos
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maio 26, 2018
A tremilidade das mãos entrega o que no peito zabumba sem querer. De dentro grita com todo o medo do mundo porque sabe que ninguém vai ouvir.
Se já houve outros tipos de rangido, tento identificar mais este; acho que vem das mãos. Nunca tinha ouvido falar de rangido das palmas, das linhas, dos tracejados e rasgos da pele.
Elas rangem baixinho, sem muito alarde.
Se calça as luvas elas param, mas é só tirar de novo que o irritante ruído volta. Passo os dedos uns nos outros, cochicho para eles ficarem bem; baforo para aquece-los de leve e depois os escondo entre os braços marcados.
Tamborilando os dedos na testa, tateei com os olhos lá de cima o chão maciço. Depois, sem pensar muito, corri até a ponta do prédio umas três ou quatro vezes; na última o meu dedo desencostou do concreto e a queda foi indubitável. Antes de tocar o chão, senti a água contra meus ombros. Afundei na mais pura volatilidade. Mas então, o chão asfaltado veio de encontro. O som era ensurdecedor. Na hora senti o extraordinário nada - um velho conhecido -, e olhei para minhas mãos e tentei mexer a ponta dos dedos.
Sem respostas.
"Vamos, eu sei que vocês podem se mexer".
Nada.
"Ora, mas não é possível que até vocês não conseguem responder mais."
De presente, ganhei uma caixinha com lascas do asfalto esmagado pelas minhas costas.
"É para você se lembrar que foi um susto, um arranhão.", me disseram.
Olhei para as minhas mãos, e depois de desenfaixa-las, elas tinham cicatrizes. Rangiam ainda, agora até mais alto, e com um risco em forma de folha, ou fogo ou gota ou uma pintura do Matisse.
Das incertezas que encontraria ao saltar, uma desanuviou no momento que mirei a superfície arenosa lá em baixo: a melhor coisa que eu fiz foi pular daquele prédio. Sentir o vento, a água e até o chão, fizeram evaporar o que era de efêmero.
Meu pulo não leva nada nem ninguém, não necessariamente; somente encosta nas peles gélida-marmóreas.
Dê teu passo para trás que eu acompanho; essa dança não é para um só, tão pouco para três ou mais.
Te aquiete, não haverá mais bacias, mares, riachos ou baías para atravessar.
Não temeres, o tempo perpassa nosso passo no compasso da dança que tu me tiraste e tomaste nos braços, por uma tentativa fugaz de encontrar calmaria na brevidade; mas eu sei que tu não acreditas que poderás ter até que se encontre em meio as feridas.
E nesse meio tempo, músicas serão tocadas lá da sala, baixinho e murchinho, atrapalhando teu sono pesado e estático enquanto o sol enxágua o quarto amadeirado numa manhã qualquer de domingo.

Romã
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março 17, 2018

​Você vem
Me usa
Se lambusa

Fala o que quer
E se eu não concordar
Você da no pé
Antes do amanhacer

Me ama
Me pega
Me joga para todos
os cantos;
Me vira do avesso
E me senta do seu lado,
Me fala coisas que eu não entendo
E eu te devolvo com tantas outras
que você,
Pela impaciência,
Não se interessa em saber o que é.

Para você
Eu falo
Sem importância
E nada o que eu digo
você vê.

E me procura outra noite qualquer
Para repetir toda a nossa trama
Até ficar satisfeito de novo
E eu,
Irremediavelmente apaixonada,
Tomo sua dose forçada
A cada momento que você deita ao meu lado
Sem eu conseguir dizer não.

Fico bêbada
E mais bêbada
de você

Sem desfixar meus olhos dos seus
Sem coragem para te deixar
com suas carências
massivas e desterritorializantes

Eu apenas
Aceito

E invento

Que você é tudo o que eu tenho
E tudo o que eu sempre quis ter.


Dedicado a todas e todos que já aceitaram o pouco para se sentirem amadas e amados.
E principalmente às mulheres que acham/acharam que o amor é/era algo difícil, seguido de dor e pesar.

Marselha
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dezembro 04, 2017
 

Movi meus braços sem muito alarde e sem sair do lugar, exatamente como a etiqueta previa. Não fiz nenhum movimento brusco, mal dava para perceber que havia tremido. Minhas pernas se mexeram involuntariamente e minhas mãos tamborilaram harmonicamente.
Cerrei os lábios, enterrei os olhos; esvaziei os pulmões, mas com cuidado para não ser audível. Enchi o peito novamente e tentei não rir de forma boba, como qualquer mulher que, se estivesse no meu lugar, também riria.
Eu quis sair dalí várias vezes, mas o arrepio da minha pele ao se encontrar com a brisa mediterrânea que invadia o quarto me segurava pelo punho. Vez ou outra que ela entrava, me lembrava porque estava à espera e me distraía da sensação de me sentir ridícula. Distraía também do não-passar do tempo; um eterno derreter dos minutos que eu mal conseguia suportar o marca-passo relógio. Com certeza estava há muito tempo na mesma posição. Talvez horas.
Olhei para Gil, quase que de espreita. Ele sorriu satisfeito.
- É a primeira vez que você olha para mim. -constatou ele.
Não consegui esboçar nada. Não tinha certeza se minha voz conseguiria sair e, na verdade, não sabia o que dizer.
- Algum problema?
- Não. - minha voz falhou.
Ele riu, quase uma gargalhada.
- Você parece aflita, Lena.
Respirei audivelmente em protesto a fala irônica de Gil. Mirei a janela e senti a brisa escapulir mais uma vez.
Ele deu outra risada despretensiosa e pôs o cabelo atrás da orelha. 
- Não vai demorar muito agora. - disse ele em um sorriso contido.
Meu corpo estremeceu, um arrepio atravessou minhas costelas e peito. Escorreguei os olhos até Gil, seguindo o desenho concentrado de suas sobrancelhas.
- Lena, você está sorrindo. - disse ele mal tirando os olhos da tela. -preciso que fique séria.
- Desculpe.
Apertei os lábios e respirei.
- No que estava pensando? -perguntou ele sem perder a concentração, mas em tom casual.
- No vinho do seu lado. -disse de uma vez só e sem encara-lo.
Ele riu.
Gil estava todo manchado de tinta e um pingo de suor começou a deslizar pela sua testa, se demorando a chegar ao queixo. Ele não era minucioso, não parecia ser atento a detalhes e vez ou outra conseguia ver seu nariz reto, como de uma estátua marmórea, sair por de trás da tela. Fantasiei em como ele estava me vendo, passando os olhos pelas minhas pernas e seios, boca, dedos... quase pude sentir a pele dele na minha só de seguir seus olhos em mim.
Mais uma vez o arrepio com a brisa vinda da janela. Olhei para as cortinas que bailavam aos caprichos do vento. Não havia lua naquela noite, ou se havia, ela preferia se manter despresentificada daquele quarto. No entanto, o pincel na tinta, as manchas no chão, a chama da lareira e o bule com essência de lavanda, reivindicavam seu espaço com gosto, e o vinho e o pão continuavam à espera na mesa para a ceia jamais tocada. La fora, a sombra e o farfalhar de grandes árvores, denunciavam a tal da brisa que chegava pouco depois, sem demora. E então, um susto seguido pelo revirar do meu estomago quando Gil bradou o término da pintura.
Fingi não ter pressa de por o roupão e me levantei da cama.
Fui me ver pintada na tela de Gil. A quase concretude de mim me fez levar as mãos à garganta. Eu não pude, nem conseguia falar nada. Do instante que eu vi os traços tintos-tingidos na tela, ao que eu olhava para ele e ele olhava da pintura para mim, sem sorrir e com um ar de tédio, passei minha mão nos meus cabelos até a nuca. As palavras ainda não me cabiam, eram uma luva sem par.
Soltei o ar, não sabia que ele estava há tanto tempo preso nos meus pulmões. Fui até a mesa do vinho, enchi duas taças, entreguei uma a Gil e brindamos. O tilintar das taças disseram mais do que eu poderia ser capaz. A brisa voltara, estremeci mais uma vez. Ele ouviu o silêncio e soube o que eu havia sentido.

o que rangeu hoje foram os ombros
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setembro 04, 2017

Enquanto falava sem parar, me perguntaram “tudo bem, mas onde está sua paixão?”.
Foi tão de surpresa que me calei. Me calei e estremeci.
E repeti: Onde está minha paixão?
Meu desejo e minha vontade de abrir os olhos e não queima-los ao encontrar o sol?
Morri por dentro como mais uma vez era para morrer.
Me joguei de um precipício
Caí no mar,
Mergulhei em cílios,
Águas de saliva,
Algas de cabelos,
Emaranhados de dedos seguraram meus tornozelos e me jogaram ao chão no que fui dar um passo, não foi mais possível andar e meus ombros sairam do lugar.
Hoje senti a dobradura do meu braço pela primeira vez. Elas doeram e me provaram que estiveram ali segurando meus braços e ombros.
Ah os ombros...
Não sei para onde foram os meus ombros.
Constatei que dessa vez não foram minhas pernas que saíram para andar sozinhas e meu torço se mexe agora; foram meus ombros que pararam de reagir. Deles eu nunca mais tive respostas e fico me perguntando o que eu fiz pra eles me deixarem com todo o meu resto.
Mexi o pescoço devagar, vai que ele acorda o ombro direito, pode ser que esteja cochilando depois de um longo tempo aguentando absurdos de pesos que coloquei em cima dele ao longo dos anos.
Irônico mesmo foi eu alisando-o quase como um carinho. “Ora seu maldito... você está dormindo ou se foi de vez? Será que escangalhou? Será que ainda há como recuperá-lo?” e pigarreei umas duas vezes. “Pelo amor de deus, já está ridículo eu implorar que pedaços de mim fiquem. O que diriam se vissem esse velho, nesta cadeira, pedindo para um ombro se mexer?”. Olhei para os lados para me certificar que ninguém me via enquanto eu falava com meus cacos.
Olhei para o relógio certa tarde e quando levantei a cabeça de novo, minha pele estava manchada e minha testa franzida. Havia poeira na janela e no colchão. Deixei minhas costas deitarem na cama, senti o cheiro de madeira e o vento gelado que vinha da porta entre-aberta.
Ouvi um chorinho de melodia triste vindo da cozinha, do rádio antigo que ficava perto do balcão, quando cheguei lá, havia apenas ruídos da estática compondo uma nova música irritante demais para os meus ouvidos.
Pisquei algumas vezes, apertei o lábio e limpei a garganta.
Fingi segurança quando respondi que minha paixão estava para ser encontrada ainda, mas a verdade era que eu ainda me perguntava: Onde está minha paixão?

Ensaio sobre veraneio
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agosto 21, 2017
​Posso entrar?
Não vou ficar muito tempo.
Vou tirar umas coisas do lugar,
mas não vou desarrumar muito.
Deixei os sapatos do lado de fora
pra não ter tudo de mim aqui dentro.
Coloquei uma música que
não sabia se você iria gostar;
também coloquei um filme na tv pra passar,
assim,
meio sem pretensão.
Endireitei um quadro na parede,
levantei um porta-retrato.
Quanto tempo você não abria as janelas?
Ou as cortinas?
Quando foi a ultima vez que pegou um livro na estante?
Coloquei mais uns dois novos,
vai demorar uns três meses para você descobrir onde estão.
Tirei seu velho violão de trás do armário,
coloquei junto com as tintas em cima do balcão.
Deitei na tua cama,
acho que ficou meu perfume no travesseiro.
Quando trouxer alguém aqui
depois de mim,
você vai ter problemas.
Abri seu guarda roupas
e passei os dedos pelos seus cabides,
todos tão bem arrumados e em degradê de cores,
que nem parece que pertencem a você
e a todo esse caos
que perambula na sua cabeça.
Misturei as blusas sociais com as de ficar em casa
e troquei suas toalhas de lugar.
Fui pra cozinha
e coloquei a páprica no lugar da pimenta,
me diverti ao imaginar você sem entender
como aquilo foi acontecer.
No final do dia,
com o sol baixando e entrando pela janela
com a luz meio laranja, meio amarela
resolvi fazer um café
e ficou tudo com cheiro dele,
você sabe que faz bem para acordar e
eu sei que você gosta sem açúcar ou adoçante.